70 semanas de Daniel: A profecia já se cumpriu?

A profecia das 70 semanas de Daniel (Daniel 9:24-27) é um dos textos mais estudados e debatidos da escatologia bíblica. Alguns teólogos defendem que essa profecia já se cumpriu historicamente, especialmente no período que vai desde o decreto para reconstruir Jerusalém até a destruição do Segundo Templo em 70 d.C.

 

Contexto de Daniel 9:24-27

Daniel recebe a profecia enquanto ora pela restauração de Jerusalém e pelo fim do exílio babilônico (Daniel 9:1-19). O anjo Gabriel responde com uma revelação sobre 70 “semanas” (u shabuim, em hebraico) determinadas sobre o povo judeu e Jerusalém. Cada “semana” representa 7 anos, totalizando 490 anos (70 x 7).

Análise Detalhada dos Versículos

  1. Daniel 9:24 – O Propósito das 70 Semanas

“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para extinguir a transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniquidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia e ungir o Santo dos Santos.”

Explicação:

  • “Setenta semanas” (490 anos): Um período para cumprir seis objetivos messiânicos:
    1. Extinguir a transgressão – Redenção através do Messias.
    2. Dar fim aos pecados – Perdão definitivo em Cristo.
    3. Expiar a iniquidade – Sacrifício de Jesus na cruz.
    4. Trazer justiça eterna – Estabelecimento do Reino de Deus.
    5. Selar visão e profecia – Cumprimento das promessas em Cristo.
    6. Ungir o Santo dos Santos – Consagração do verdadeiro templo (Cristo ou a Igreja).

Teólogos como Philip Mauro argumentam que esses objetivos foram cumpridos na primeira vinda de Cristo e na era apostólica.

  1. Daniel 9:25 – O Início e a Reconstrução de Jerusalém

“Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém, até ao Ungido, ao Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as praças e as muralhas se reedificarão, mas em tempos angustiosos.”

 

Explicação:

  • “A ordem para restaurar Jerusalém”:
    • Alguns identificam esse decreto com o de Artaxerxes I em 445 a.C. (Neemias 2:1-8), que permitiu a reconstrução dos muros.
    • Outros (como E.W. Hengstenberg) defendem o decreto de Ciro em 538 a.C. (Esdras 1:1-4) ou o de Dario em 520 a.C. (Esdras 6:1-12).
  • “Sete semanas e sessenta e duas semanas” (69 semanas = 483 anos):
    • Primeiras 7 semanas (49 anos): Reconstrução de Jerusalém em tempos difíceis.
    • 62 semanas (434 anos): Período até a chegada do Messias.

Cálculo de Sir Robert Anderson (em “The Coming Prince”):

  • Partindo de 445 a.C. (decreto de Artaxerxes) e usando o ano profético de 360 dias (como em Apocalipse), chega-se a 32 d.C. (ano aproximado da crucificação).
  1. Daniel 9:26 – A Morte do Messias e a Destruição de Jerusalém

“Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido será morto, e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário.”

Explicação:

  • “O Ungido será morto”:
    • Jesus foi crucificado após o fim das 69 semanas (por volta de 30-33 d.C.).
  • “O povo de um príncipe destruirá a cidade e o santuário”:
    • Cumprido em 70 d.C., quando os romanos (sob Tito) destruíram Jerusalém e o Templo.

Philip Mauro (“The Seventy Weeks and the Great Tribulation”) argumenta que:

  • O “príncipe que há de vir” é Tito, general romano que liderou a destruição.
  • Não há um intervalo entre a 69ª e a 70ª semana; a última semana ocorreu no século I.
  1. Daniel 9:27 – A Última Semana e a Aliança

“Ele fará firme aliança com muitos por uma semana; na metade da semana, fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares.”

Explicação (visão já cumprida):

  • “Firmar aliança com muitos”:
    • Cristo estabeleceu a Nova Aliança durante Seu ministério (Lucas 22:20).
  • “Na metade da semana (3,5 anos), cessarão sacrifícios”:
    • A morte de Cristo (meados da 70ª semana) aboliu os sacrifícios do Antigo Testamento (Hebreus 10:9-10).
    • Em 70 d.C., o Templo foi destruído, impossibilitando os sacrifícios.

Argumento de J.A. Alexander (“Commentary on Daniel”):

  • A 70ª semana ocorreu entre o batismo de Jesus (~27 d.C.) e a conversão de Cornélio (~34 d.C.), marcando a pregação aos judeus.

Conclusão: A Visão Histórica das 70 Semanas

  1. Decreto para reconstruir Jerusalém → 445 a.C. (Neemias 2).
  2. 69 semanas (483 anos) → Até o ministério de Jesus (~30 d.C.).
  3. Morte do Messias → Cumprimento da expiação (Daniel 9:26).
  4. 70ª semana (7 anos) → Ministério de Jesus e pregação apostólica.
  5. Destruição de Jerusalém (70 d.C.) → Fim da profecia.

Essa interpretação preterista (já cumprida) contrasta com a visão futurista (que vê a 70ª semana como o período da Tribulação). No entanto, os defensores do cumprimento histórico argumentam que a profecia se encerrou com a era messiânica e a destruição de Jerusalém.

 

Explicação Detalhada da 70ª Semana

  1. Início (33 d.C.):
    • A morte de Cristo não é após as 70 semanas, mas no início da 70ª, como parte do cumprimento.
    • “Ele fará aliança com muitos” (Dn 9:27):
      • Cristo estabelece a Nova Aliança (Lucas 22:20) durante Seu ministério.
  2. Metade da Semana (~33-36 d.C.):
    • Sacrifícios cessam:
      • A morte de Cristo torna obsoletos os sacrifícios do AT (Hebreus 10:18).
      • Em 70 d.C., o Templo é destruído, impossibilitando os ritos.
    • Pregação aos judeus:
      • Os 3,5 anos após a crucificação cobrem Atos 1–7 (perseguição aos cristãos judeus).
  3. Fim (70 d.C.):
    • Destruição de Jerusalém:
      • Cumpre o juízo de Dn 9:26 (“o povo do príncipe destruirá a cidade”).
      • Tito, general romano, é o “príncipe” que cumpre a profecia.